segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Da Censura ao Acto Brutal. A Rua Proibida.

Toda a gente sabe que uma porta que se feche atirada pelo vento faz um barulho de trinta mil demónios*


Depois de uma volta ao labirinto de livros cá em casa (prometo que hei-de organizar tudo num ficheiro por ordem alfabética), resolvi entrar no Ensaio Sobre a Lucidez de José Saramago, um dos meus escritores, desde sempre, eleitos. Os livros de José Saramago vêm dos tempos em que me esgueirava para uma rua, proibida pelo meu pai (entendia ele que eu só deveria fazer um caminho da escola para casa e vice-versa), para me debruçar na Livraria Simões, num frenesim de letras e capas sugestivas, e embrenhar-me em todos os livros e ver as novidades.
José Saramago, independentemente de ser um grande homem das letras e um antevisto Nobel, irritou-se com o seu país e acordou na sua cinzenta ilha de Lanzarote, depois de comprar um bilhete só de ida. Em 1992, um subsecretário de Estado da Cultura, católico fervoroso, fez uma cruz, à totobola, ao Envangelho Segundo Jesus Cristo,  para a lista de concorrentes ao Prémio Literário Europeu. "Censura" e "acto brutal", assim foi denominada, esta atitude, por Saramago. Independentemente de eu ser uma coleccionadora de livros, de perder horas a ler, a escrever e de começarem a chegar os prémios literários, não impediu que o meu pai me apanha-se na dita rua e procedesse ao fecho definitivo dos portões da mesma, depois de soltar todos os uivos possíveis e chamar o vento. Entendia ele que eu para ali ia era à procura de miúdos, deveria manter-me na ilha cercada, mas neste episódio, escolhida por ele. Acto brutal? Sim, porque ele, ainda hoje, depois de quase 30 anos, apesar de todas as pancadinhas que me dá nas costas, ainda pensa com a mesma censura. Uivemos, disse o cão*.

Street Art in Campo das Cebolas


*Ensaio Sobre a Lucidez, José Saramago

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