…duas lágrimas escorreram-me dos
olhos, sem que eu as visse e ninguém visse e percebi que estava vivo – embora também
pudesse acreditar que estava morto, se alguém então mo tivesse dito. (Miguel Sousa Tavares)
Ao ler “Manhã de África” de
Miguel Sousa Tavares e do seu filho, mais propriamente “UKUHAMBA”, fui confrontada
com uma história real, passada no Zimbabué, que me fez recordar um documentário
que vi, nos anos 80, passado no Quénia. Costumo falar imenso neste documentário para encarnar
as contradições que, no quotidiano, nos estafam os sentimentos, quase que diariamente.
A vida é uma contradição permanente. Aqui e ali o círculo vicioso repete-se. Por
exemplo, o excesso de vida que se defende para uns pode levar à morte de outros
e vice-versa. Depende da curva em que se está do círculo.
No documentário, um grupo de
ambientalistas e defensores dos animais encetou uma luta, com apoio de governantes,
contra a caça furtiva ao elefante para o mercado do marfim. Salvava-se a população
elefante que tinha descido em 80% e corria para a extinção, grosseira e sem
sentido, no Quénia. O sucesso foi tal e perfeito que a população elefante cresceu
a olhos vistos. Tudo era de facto lindo, as famílias de elefantes tinham nomes
e os ambientalistas regozijavam-se em júbilo. Mas, a população humana também
cresceu imenso e todos eram muitos… À noite, as manadas de elefantes começaram a
invadir as plantações em busca de alimento, alimento esse, que pertencia ao
homem. As plantações desapareciam tão rápidas como a água do Zambeze nas
Cataratas de Victoria Falls e o homem não tinha o que comer. Então tudo voltou
ao início… Foi doloroso aos ambientalistas ter que escolher quais os elefantes,
salvos no universo, que agora teriam que ser abatidos. Entre o homem e o bicho
a escolha só poderia ser uma. Morte, vida, morte. O nosso dia-a-dia é assim
aqui e ali e as histórias repetem-se. E há um pormenor, além do círculo vicioso,
no itinerário dos momentos: o disparo. Tudo se pode resumir num disparo, quer
ele seja de uma carabina onde o elefante cai estatelado para salvar uma
população, ou o velho disparo de uma máquina fotográfica para mostrar num livro, tipo o do
Miguel, como o elefante é belo e lhe reina a vida…

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