sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Disparo de Vida ou de Morte


…duas lágrimas escorreram-me dos olhos, sem que eu as visse e ninguém visse e percebi que estava vivo – embora também pudesse acreditar que estava morto, se alguém então mo tivesse dito.  (Miguel Sousa Tavares)


Ao ler “Manhã de África” de Miguel Sousa Tavares e do seu filho, mais propriamente “UKUHAMBA”, fui confrontada com uma história real, passada no Zimbabué, que me fez recordar um documentário que vi, nos anos 80, passado no Quénia. Costumo falar imenso neste documentário para encarnar as contradições que, no quotidiano, nos estafam os sentimentos, quase que diariamente. A vida é uma contradição permanente. Aqui e ali o círculo vicioso repete-se. Por exemplo, o excesso de vida que se defende para uns pode levar à morte de outros e vice-versa. Depende da curva em que se está do círculo.


No documentário, um grupo de ambientalistas e defensores dos animais encetou uma luta, com apoio de governantes, contra a caça furtiva ao elefante para o mercado do marfim. Salvava-se a população elefante que tinha descido em 80% e corria para a extinção, grosseira e sem sentido, no Quénia. O sucesso foi tal e perfeito que a população elefante cresceu a olhos vistos. Tudo era de facto lindo, as famílias de elefantes tinham nomes e os ambientalistas regozijavam-se em júbilo. Mas, a população humana também cresceu imenso e todos eram muitos… À noite, as manadas de elefantes começaram a invadir as plantações em busca de alimento, alimento esse, que pertencia ao homem. As plantações desapareciam tão rápidas como a água do Zambeze nas Cataratas de Victoria Falls e o homem não tinha o que comer. Então tudo voltou ao início… Foi doloroso aos ambientalistas ter que escolher quais os elefantes, salvos no universo, que agora teriam que ser abatidos. Entre o homem e o bicho a escolha só poderia ser uma. Morte, vida, morte. O nosso dia-a-dia é assim aqui e ali e as histórias repetem-se. E há um pormenor, além do círculo vicioso, no itinerário dos momentos: o disparo. Tudo se pode resumir num disparo, quer ele seja de uma carabina onde o elefante cai estatelado para salvar uma população, ou o velho disparo de uma máquina fotográfica para mostrar num livro, tipo o do Miguel, como o elefante é belo e lhe reina a vida…

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